Ministério do Turismo, Secretaria Especial da Cultura e Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa , Clóvys Torres e Visceral Companhia apresentam:

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foto Priscila Prade

 


Quando me sinto sufocado, angustiado, assoberbado, eu escrevo. Assim tem sido  há muitos anos. É como se cada palavra que deposito  no teclado, ou no papel, abrisse um tanto de células, de poros e liberassem espaço para  oxigênio no meu corpo. Parece exagero, mas não é, eu libero palavras para literalmente respirar. 

E quando a pandemia se alastrou mundo afora, eu estava em Portugal, cheio de palavras para dizer, para respirar nos palcos, junto com o público, olho no olho, liberando espaço coletivo para sonhar e rememorar. Não foi possível, um soco na alma nos silenciou e distanciou e o abraço carinhoso virou ameaça de morte. E esta peste, Covid-19,  se instalou, com espanto, e nos sufocou de medo, nos distanciou. 

Os dias se passavam e, na poesia e no silêncio, sempre busquei refúgio. No lugar do público, dos abraços, um jardim silencioso e uma contemplação da vida, com uma onda perigosa e invisível a gritar sobre os muros de nossas casas, a varrer as ruas de horror e de dor. Viramos espectadores de nós mesmos e, aos poucos, fomos esticando os olhos em direção aos mais genuínos afetos para dividirmos dores e sonhos, para nos certificarmos  de que ainda estávamos vivos, apesar do horror.  

E o tempo brincou conosco, com nossas referências, com nossas loucuras, rasgando sonhos, impondo paciência de toda ordem, nos fazendo resilientes... Incrédulos, sofremos as consequências de políticas irresponsáveis de um governo genocida diante do caos, ateando fogo na natureza e brincando com a morte do povo.

Foi neste cenário que, um dia, a atriz Tuna Dwek, talentosa amiga e parceira de outros projetos, me ligou para saber como e por onde eu andava. Falamos muito sobre tudo e, ao final da longa conversa, ela me  fez um desafio: escrever um texto  para ela e Lilian Blanc atuarem juntas. Lilian é parceria antiga, há dez anos ela  encantava o público com outro texto meu, O Convite de Casamento. 

Desliguei o telefone e fiquei com aquele universo rico e lindo de duas atrizes que eu adoro -talentosas e afetuosas, comprometidas - flutuando sobre meu jardim,  dentro do meu coração. E as palavras se agitaram para falar sobre o espanto atual, sobre  nossos corações apertados, sobre nossas almas distópicas e esperançosas.

 

E por dias eu respirei com Tuna e Lilian. Palavras, palavras, imagens, tristezas, alegrias, memórias e sonhos!  Depois delas, veio Cristina Cavalcanti para dirigir e muitos talentos para que pudéssemos respirar juntos, neste momento tão potente e difícil da nossa história. Nossa ficha técnica é um sonho realizado, só gente talentosa e comprometida.  

E cá estamos, realizando um sonho, respirando, vivendo, derrotando a distopia e os genocidas que insistem na promoção da morte e do caos, negando a ciência e toda ordem de sensibilidade e poesia.

De coração aberto, espero que você goste desta história, que você se sinta representado por estas duas mulheres incríveis e que, sobretudo, a nossa poesia promova a sua vontade de continuar vivo e lutando por um mundo mais humano e empático. 

Agradeço enormemente  a Tuna pela amizade e afeto, pelo convite-provocação e pela parceria de sempre, assim como a  Lilian. Agradeço a Tina pela direção primorosa, agradeço ao Rodrigo,  Henrique, Murilo, Igor, Sylvie, Jean, Selene, Adriana, Igor Ludac, Priscila... vocês ajudaram a compor e a realizar esta poesia, esta peça. E agradeço imensamente ao amigo, dramaturgo inspirado, talentoso e um dos maiores nomes da nossa dramaturgia,  Alcides Nogueira, pela sua generosidade e  seu olhar sobre meu trabalho, sobre nossa jornada. Você me emociona, Tide!  

Enfim, bom espetáculo a todos. Com vocês, eu respiro em paz, confiante de estar no lugar certo, na hora certa, na certeza que nem tudo está perdido. 

CLÓVYS TORRES

"Não sobrou nem a árvore da outra história."

Meio século depois e Becket não imaginava que o mundo estaria numa situação ainda mais absurda. Um vírus mortal ameaça a humanidade e há pessoas em festa, comemorando sabe-se lá o quê. Estamos em confinamento, na nossa impotência, proibidos de protestar contra o genocídio enquanto novas cepas se multiplicam.

 

Buscamos o encontro a qualquer preço, através das redes sociais, das lives, do zoom, dos abraços virtuais. Mas o que há do outro lado da tela? Alguém nos vê? Alguém nos ouve? O que resta? 

 

Nossas duas mulheres - ou será uma? - são sobreviventes. Não têm futuro. Nem perspectiva. O que as salva é o afeto, o cuidado, a consciência de que, sendo reflexo uma da outra, sozinhas não são mais nada. "Somos um montinho de ossos e pele", ela diz. "Somos todos um", diz o poeta. As lembranças, as imagens, a presença, tudo é projeção. Cada qual é responsável pelo mundo que habita. 

 

No início da pandemia, mais precisamente no décimo oitavo dia de quarentena, meu filho acordou, me deu um abraço e contou o sonho que teve. “Era uma casa imaginária. Entravam pessoas sem cabeça. Depois vinham duas caveiras montadas em cavalos caveiras, e elas traziam uma carroça feita de ossos, cheia de esqueletos de porcos.” Essas imagens tão jodorowskianas não saíam da minha cabeça e eu só pensava em levá-las ao palco, à tela. Nada me interessava mais. Peças cômicas me pareciam frívolas e as trágicas só trariam dor a um público que não suportava mais sofrimento. Desisti. Achei que não encenaria mais nada.

 

Então Clóvys Torres me ofereceu em confiança esse texto árido, deslumbrante em sua poesia e cirúrgico em sua crítica, escrito especialmente para Tuna Dwek e Lilian Blanc, essas atrizes gigantes. Uma luz se acendeu. Era sim possível falar com leveza sobre esse nosso tempo, trazer esse mundo distópico com humor e alguma esperança. Transbordei. Aceitei o desafio. 

Costuramos através das nossas janelas virtuais essas personagens, durante alguns meses, e Tuna e Lilian as viveram no palco num único dia, registrado aqui nesse teatro filme. 

Minha eterna gratidão a Clóvys Torres por essa obra superlativa e pela perfeita condução ao produzi-la; aTuna Dwek, atriz de rara profundidade que sempre admirei e que deu o primeiro passo para a realização desse trabalho; a Lilian Blanc, que já dirigi tantas vezes, sempre brilhante e generosa; a Henrique Pina, com quem tenho construído uma parceria fiel; a Rodrigo Menck, que nos trouxe essa luz incrível e montou milimetricamente nosso filme, a Igor Souza, que criou essa ambientação através da trilha orgânica, a Murillo Carrara, que executou nosso belo cenário, a Adriana Monteiro, amiga e assessora que tem o poder de abrir caminhos. E a toda equipe coesa que, com sangue nos olhos, trouxe ao palco aquilo que o imaginário desenhou. Sylvie, Jean, Igor Ludac, Selene, Marcela, Sérgio, Icarus, Raíssa, Rafael, Alberto, Alemaotone, Jorge e todas as pessoas que juntas construíram esse Amanhã.

CRISTINA CAVALCANTI
14 de março de 2021
exatamente 1 ano de confinamento
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fotos Priscila Prade

Sempre um sonho... sempre a realidade!
O teatro de Clóvys Torres me fascina! Sempre me sinto catapultado para outros espaços, outras dimensões, onde tudo rodopia, me imanta, me isola, me abandona e me acolhe!
Clóvys é um autor que vai além... Além dos limites da cena... Em busca de algo que somente ele sabe o que é... Mas que, generosamente, deixa que os espectadores tenham suas próprias procuras. Linhas diferentes, descobertas inesperadas... Clóvys é sempre surpreendente!
 
E como isso é bom.
Ele ocupa um lugar muito especial na moderna cena brasileira... Escolheu um nicho que é só dele. Onde dá à luz textos inundados de beleza, de poesia, recortes de luz e de sombra... Diálogos lapidados, esculpidos... Frases que escolhem demoradamente cada palavra... O resgate da língua!
 
Tão bonito...
Em “Amanhã eu vou” mais uma vez tudo isso se apresenta. Como um sonho... como a realidade... Lilian (Lilian Blanc) e Tuna (Tuna Dwek) são duas mulheres que proseiam o tempo todo... Estão presas uma à outra, como se fossem A Uma e A Outra, de Rimbaud. Parecem ser as últimas pessoas desse local devastado, onde lobos preenchem, com seus uivos, a solidão... A solidão ameaçadora.
Lilian diz a Tuna que ela “está perdendo tempo demais querendo entender a vida, dando sentido ao que não tem sentido algum desde sempre”. Não acontece o mesmo com ela, Lilian?
 
As duas se espelham e se negam. Não sabem o que é saudade, mas não se imaginam sozinhas... São dependentes desse grude emocional, essencial, eterno... Como imaginar Lilian sem Tuna e Tuna sem Lilian... Ameaça de ir embora... E, sempre, a volta. Que provoca alívio e aconchego, até a próxima decisão de partir.
Eternos godots gods e que tais que nunca chegam e nunca vão! A imobilidade é o próprio movimento... É assustador e, ao mesmo tempo, deslumbrante! Gosto de me sentir entre as duas, nesse balanço que não tem fim... Que não se sabe como começou...
“Amanhã, lá vamos nós outra vez”.
E tudo recomeça... Mas de outra maneira... Como? Sem spoiler!
Tome Clóvys Torres na veia. É a cura contra a mediocridade!

ALCIDES NOGUEIRA
São Paulo, fevereiro de 2021 – pandemia.
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foto Priscila Prade

A LUCIDEZ POÉTICA DE CLÓVYS TORRES

 
“Socorro, eu tenho vontade de gritar!” A frase está no texto, a perplexidade e os paradoxos gerados pela pandemia lá se encontram. Tive vontade de gritar e assim o fiz, um grito doido e doído, em forma de pedido ao meu grande amigo , íntegro e  generoso parceiro,  num longo telefonema como de hábito, onde sem pudor colocamos nosso sentimento de exílio, de desterro em nossas próprias casas. 


A morada da poesia , do atuar, nosso alimento teatral , os abraços antes dos ensaios, durante as temporadas, os cafés no saguão, os aquecimentos no palco e na coxia, o medo de entrar em cena, de esquecer o texto, a maquiagem, o cabelo, o figurino, as confidências no camarim, contracenar, rir, chorar, os aplausos, o afeto do público, as mãos dadas entre nós, agradecendo, a alegria de receber os amigos após o espetáculo, o voltar para casa metabolizando a vivência do que foi a apresentação, tudo nos foi arrancado com tal violência que não havia modo de sobreviver emocionalmente, senão pedindo ao Clóvys, um texto para que pudéssemos nos sentir segurando a vida que nos escapava pelos dedos, à nossa revelia  e para que eu pudesse concretizar um dos meus sonhos, o de contracenar com Lilian Blanc,  essa bela e talentosa amiguirmã. 
 
Clóvys descortina almas, faz a síntese do que se está vivendo. Extrai o melhor de nós, atores, nos dando palavras que cobrem nossos corpos como uma segunda pele, eloquente até nos silêncios. Soube criar a simbiose em que uma precisa da outra. A surpresa de ver nossos nomes enquanto personagens me causou comoção, era como se nos desnudássemos neste planeta dizimado sem perdermos nossa identidade. Temos muito uma da outra, não somos autossuficientes, precisamos do outro, e  talvez essa lição permaneça quando esse pesadelo terminar. 


Com “Amanhã eu vou”, de Clóvys Torres, aprende-se que raízes queimadas podem se transformar em flores, podem ser "uma promessa de primavera”. É essa sua lucidez poética que flui ora como lava caudalosa , ora com o frescor de  um rio de águas límpidas. E assim, a aridez do planeta calcinante se transformou num oásis de ensaios cotidianos, de descobertas compartilhadas, cada um com sua história, cada um com seus temores e amores,  permeados sem cessar e sem receio, do que nos move, essa paixão que sobrevive a hecatombes, nossa essência que pode permanecer intacta a despeito das dores mais profundas, e dos desafios que a vida traz , quebrando muitas vezes nossa estrutura humana que ressuscita no palco.


O que restou da sensação de apocalipse ? Uma esperança de vida, de futuro, a palavra “amanhã”. Amanhã eu vou... mas hoje vou agradecer cada um, vou celebrar nosso público leal e fiel, que terá por ora que assistir em casa e imaginar nossas respirações e intuir nossas sensações, sabendo que demos o melhor de nós, que esperamos levar um alento neste momento onde a aflição humana atinge devastadoras proporções. É momento de estarmos juntos e de retribuir o amor que o Teatro gera e gera e gera entre nós, na utopia de um mundo mais caloroso.


Meu coração pediu o texto no inverno, ele chegou na primavera, floresceu no verão , e quando o outono chegar , ele começará um novo ciclo e, assim, nos sentiremos vivos em vocês, para quem estamos oferecendo nosso trabalho.


Lilian, Tina, Clóvys, Pina, Adriana, Rodrigo, Igor, Igor Ludac, Sylvie, Jean Marcel, Murilo, Priscila, Selene , Marcela, Mastro, Icarus, Rafael, Raíssa, Everaldo, Teatro Viga, Alberto e Tide meus queridos, muito obrigada, muito. E como diz o texto em sua dialética “nem se abraçar a gente pode...”, mas  “Parece que tudo promete algo”. Amém .

 

TUNA DWEK

março de 2021

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foto Priscila Prade

Duas atrizes, uma diretora, um autor, um staff de pessoas especiais e uma pandemia que queria ser protagonista da história. Um medo que não nos impediu de nos reunirmos virtualmente e fazer o texto acontecer. Hoje ficaremos e amanhã também. Com todos os problemas e “pepinos” da internet. A parceria com a Tina vem de longa data. De muitas vivências, muitos cafés, encontros, espetáculos. Tuna, querida amiga, que deu o pontapé inicial neste jogo de cena. Que prazer estarmos juntas. Até que enfim! Henrique sempre competente e atento a tudo e “pau pra toda obra” Clóvys , um parceiro que surgiu de um amor à primeira vista e que fez da minha vida artística um aC/dC (antes e depois de Clóvys) e ele sabe bem do porquê. Nunca mais nos largamos. Adriana, Igor, Mari, Murillo, Rodrigo, Priscila, Selene, Marcella... para fechar este time em que “ninguém solta a mão de ninguém”.
 
Amanhã Eu Vou tem duas mulheres desoladas, perdidas, pedintes, famintas e um texto de uma força notável e de uma atualidade que derruba qualquer barreira. O lobo do medo foi enxotado e assim nos reunimos, cada um em sua casa, para criarmos um espetáculo que fala de desolação, mas que é, principalmente, um grito de fé e de esperança. Numa terra arrasada, duas mulheres encontram força apoiadas uma na outra, assim como encontramos força para passar por momentos difíceis sem perder a poesia, a beleza e a felicidade das lembranças em cores, sons e tons. O mundo ainda pode ser um bom lugar pra morar.
LILIAN BLANC
 
 
 

FICHA TÉCNICA

dramaturgia
direção
elenco
iluminação
trilha sonora
cenografia
cenotecnia
técnica de luz
Clóvys Torres
Cristina Cavalcanti
Lilian Blanc
Tuna Dwek
Rodrigo Menck
Igor Souza
Cristina Cavalcanti
Murillo Carraro
Sylvie Laila
Jean Marcel
operação de luz
assistência de direção 
design gráfico e web
fotografia still
assessoria de imprensa
redes sociais
captação de vídeo
apoio/captação de vídeo e streaming
cinegrafistas
Sylvie Laila
Henrique Pina
Jiboia Estúdio
Priscila Prade
Adriana Monteiro
Igor Ludac
PDP Filmes
SM Arte Cultura
Ícarus Cardoso
Rafael Torres
Raíssa Fiorin
assistência de produção
 produção
realização
Henrique Pina
Clóvys Torres
Clóvys Torres e
Visceral Companhia
 

EQUIPE

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AGRADECIMENTOS

Adriana Florence, Alberto Dwek, Agnes Zuliani, Alcides Nogueira, Alysson Oliveira, Ana Maria Cavalcanti, Augusto Cavalcanti Menck, Carlos Baldim, Cecilia Dantino, Claudio Fontana, Elias Andreato,  Elisete Jeremias, Fernando Villas Boas, Guilherme Bryan, Grupo Pândega, Ildemar Silva, Ivan Andrade, João Carlos Couto, Jorge Leal, Leopoldo de Léo Júnior, Marcos Félix, Mari Ribeiro Bryan, Mario Vitor Santos, Rita Sassoon, Nelson Chaves, Oficinas Culturais Oswald de Andrade, Olinto Malaquias, Simone Yunes, Teresa Pina, Valdir Rivabem e Zuza Blanc.

 

APOIOS

VISCERAL COMPANHIA.png
jiboia estudio
OFÍCIO DAS LETRAS
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PLANETAS

REALIZAÇÃO

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